21:14

IV

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Esperei, esperei e esperei mais um pouco. Rebolava na cama, à espera de uma simples mensagem de telemóvel. Mas era muito mais do que uma simples mensagem de telemóvel. Era a mensagem que viria culminar a noite perfeita. Às 6h45, em ponto, eis que ouvi um “pi-pi, pi-pi”. “É ela”, pensei eu. Virei-me para o lado esquerdo da cama e sem perder tempo a acender luzes peguei no telemóvel e li, “Mensagem recebida de Lisa. Ler?” Carreguei na tecla correspondente ao “sim” e senti que o meu sorriso iluminou o quarto que estava escuro até então. A mensagem dizia isto, “Olha, adorei a noite de hoje e sinto o mesmo que tu, porque infelizmente o tempo não pára. Só que fiquei a pensar que te querias ir embora. Obrigada por tudo. Beijinhos grandes e dorme bem. E espero que não te esqueças de mim.” Esse é um pedido impossível. Não dormi nessa noite e sei que reli aquelas palavras umas 50 vezes. Ela não me saía da cabeça e cada vez mais, só pensava na próxima vez que iria estar perto dela. Era inebriante. Continuámos a trocar mensagens e a falar pelo Messenger à noite, e numa dessas conversas, assim meio do nada, quando já nos estávamos a despedir (como eu detestava ter de me despedir dela), ela desafiou-me a ir despedir-me dela cara-a-cara. Deviam ser umas 2 da manhã e eu ia trabalhar às 8h00, logo, certamente ela estaria à espera que a minha resposta fosse qualquer coisa do género, “ohhhh…desculpa mas hoje não vai dar…vou trabalhar daqui a pouco.” Em vez disso, eu disse-lhe: “Daqui a meia hora estou à porta da tua casa. Dou-te um toque e tu desces, pode ser?” Ela disse que sim e o meu coração começou a palpitar. Já estava de pijama, por isso vesti-me o mais rápido possível com a roupa que tinha mais à mão. Tentei não fazer barulho porque os meus pais já estavam a dormir mas sem sucesso. Como de costume, a minha mãe apanhou-me e perguntou-me onde é que eu ia aquelas horas da noite. Eu menti-lhe e disse-lhe que ia ter com uns amigos e que não demorava. Na verdade ia ter com a mulher da minha vida. Embora eu já o soubesse naquela altura, achei que seria informação a mais para a minha mãe e optei pela versão dos amigos. Devo ter ido a correr para casa dela porque não me lembro quanto tempo demorei. Lembro-me de ter saído de casa e de chegar à porta dela. Nada mais. Nada mais importava. Dei-lhe um toque conforme tinha ficado combinado, e ela desceu. Linda como sempre. Ela começou por se desculpar dizendo que também já estava de pijama e que por isso estava toda despenteada, mas para mim, ela era a mulher mais bonita do mundo. Ela é a mulher mais bonita do mundo. Tentámos reatar a conversa do Messenger ali à porta do prédio, mas o frio daquela noite de Dezembro, daquela noite de 2 de Dezembro, começava a ganhar-nos aos pontos. Ela disse que ia buscar as chaves do carro para não apanharmos tanto frio e assim foi. Num minuto ela subiu as escadas do prédio e no outro voltou a descer com as chaves na mão. Entrámos para o seu Opel Corsa preto, com a matrícula “GR” ou “Grrrrrrrrr”, como nós dizíamos (ela sempre teve matriculas engraçadas) e o quentinho voltou a instalar-se à nossa volta. Por momentos, instalou-se um silêncio incomodativo. Um silêncio daqueles capazes de deitar tudo a perder e eu fiquei ali, sem saber muito bem o que lhe dizer, sem fazer ideia do que ia na cabeça da Lisa naquele momento. Sem pensar muito naquilo que estava a fazer, peguei na mão direita dela e comecei a acariciá-la. A sua pele suave causava-me arrepios. Corámos em simultâneo. Sentia que ela também não fazia a mínima ideia o que haveria de me dizer e quase ao mesmo tempo dissemos, “Pois…então é isto não é? Aqui estamos nós…” Rimos. E eu, feito parvo, achei que deveria fazer alguma coisa, porque desde que tinha pegado na mão dela sentia que não a queria mais largar. Não poderia mais largá-la. Não depois de tudo o que tínhamos vivido até aqui. Sentia que era ali, naquele momento, que eu iria fazer a jogada mais arriscada da minha vida. Senti que poderia deitar tudo a perder. Senti que poderia nunca mais vê-la. E embora todos estes cenários fossem demasiado difíceis de visualizar, decidi arriscar tudo na mesma. Sem pensar duas vezes, porque se o tivesse feito não teria tido coragem, disse-lhe,” Há uma coisa que eu preciso de fazer desde que entrei neste carro. Aliás, há uma coisa que eu preciso de fazer desde que te voltei a ver. Algo com o qual eu não estou a conseguir lutar e que está a ser mais forte que eu. E sinto que o preciso de fazer para saber se tudo isto que eu tenho sentido nestes últimos dias é correspondido ou não. É a coisa mais arriscada que vou fazer na minha vida mas acabei de descobrir que desisti de lutar contra ela.” E dito isto, avancei na direcção do seu rosto para a beijar.
Mas ela virou a cara.
E afastou-se.

21:11

III

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Sábado, 28 de Novembro de 2004.
O dia em que eu a ia voltar a ver, tinha finalmente chegado. Passei o dia todo á espera que o sol se fosse embora para a lua poder trazer o momento em que ia estar novamente ao lado dela, ao lado da Lisa. A noite chegou. Tomei banho, fiz a barba, vesti uma camisa, com sweat por baixo, uma gravata azul, e umas calças de ganga, coloquei uns ténis quaisquer debaixo dos pés, e fiz-me à estrada. Ao mesmo tempo que me dirigia para o local onde tinha combinado o encontro, imaginava como estaria ela hoje, que sorriso teria ela guardado só para mim?! Sim, eu sei que aquela era uma ideia demasiado presunçosa, mas eu gosto de pensar que a mais pequena parte de um dos sorrisos que ela fosse esboçar naquela noite, fosse para mim. O que eu mais queria era poder levar aquele sorriso para casa. Poder guardá-lo numa caixa azul, e abrir a tampa sempre que precisasse de alegrar a minha vida. Cheguei ao ponto de encontro e estavam lá dois amigos meus, que obviamente me perguntaram o que eu estava ali a fazer. Eu respondi-lhes que ia beber café com uma amiga muito especial. Como amigos que são responderam-me, “Pois...amiga especial...sei bem que tipo de amigas são essas...” Não consegui ficar indiferente a esse comentário. Se fosse acerca de qualquer outra pessoa, talvez me tivesse mantido em silêncio e deixado passar em claro, mas não, com a Lisa não fui capaz, ela era muito mais que uma “amiga especial”. Ainda ninguém sabia, nem eu, que esta era a pessoa que ia mudar a minha vida para sempre. Disse-lhes que a Lisa era uma boa amiga, com a qual tinha perdido o contacto, e que queria muito que voltasse a entrar na minha vida. Ela chegou. Deu-me um toque para o telemóvel e eu fui ter com ela ao carro. Ainda antes de entrar no carro, consegui vislumbrá-la à distância. Os segundos que esse momento durou, chegaram para encher a minha alma de alegria. Eu estava de novo perto dela. Sim, não era uma ilusão, o seu doce cheiro perfumado ia voltar a invadir os meus sentidos. Entrei no carro e dei-lhe dois beijos. Toquei com os meus lábios no seu rosto suave e senti os lábios dela no meu. Se ela me dissesse naquele momento que nunca mais me queria ver na vida, o meu coração teria morrido de imediato, mas com a certeza, de que eu tinha estado pelo menos uma vez perto de algo tão belo e tão puro. Ela estava linda. Ela é uma mulher linda. Sem saber muito bem para onde ir, decidimos que deveria ser um sítio onde pudéssemos conversar à vontade, com pouco barulho, onde pudéssemos realmente escutar o outro. De sítio em sítio, optámos por ir para um miradouro em Sintra. Os minutos que essa viagem durou, pareceram retirados de um sonho. Eu estava ali, novamente perto dela, na esperança de acordar e vê-la ainda ali, ao meu lado. Chegámos ao local escolhido por ambos e começámos a falar, ou melhor, a conversar. Conversámos sobre tudo um pouco, mas escolhemos como tópico de eleição, as nossas relações passadas, como as superámos e o que procurávamos na pessoa ideal. De mágoa em mágoa, ultrapassámos o passado e começámos a falar sobre aquilo que procurávamos numa cara-metade. Como vim a saber mais tarde, eu descrevi a Lisa, sem saber que o estava a fazer, o que a deixou tremendamente desconfortável. O tempo ali, naquele lugar mágico, parecia passar a correr, parecia querer dizer-me que estava novamente a chegar a hora de uma despedida. Voltámos para casa. Ela deixou-me em frente à minha porta, e ambos sublinhámos que tinha sido uma noite óptima. Não me apetecia nada deixá-la, nem um bocadinho, estava a ficar viciado nela. No entanto sabia que ela tinha que se levantar cedo no dia seguinte e como tal, não podia prendê-la mais ali. Eu queria, juro que queria. Queria que houvesse uma maneira de não a deixar ir embora. Mas não a encontrei. Esperei que ela me ajudasse. Em vão. Despedimo-nos da mesma forma que começámos essa noite. Os seus beijos transportavam-me para outro lugar, para um lugar de paz e serenidade, para um lugar de magia. Toquei-lhe no rosto antes de lhe dizer adeus. Precisava de sentir que aquela noite tinha sido real. Vi o carro afastar-se e subi para minha casa. Eram emoções demais que pairavam sobre mim. Precisava de falar com ela outra vez, precisava de lhe dizer que aquela noite tinha sido especial para mim. Sem saber como, peguei no telemóvel e escrevi-lhe a seguinte mensagem, “Olhaaaaa...gostei assim mesmo muito de estar contigo hoje, mas assim muito...por isso é que me estava a custar vir embora...era giro se pudéssemos parar o tempo para não teres de ir nanar por causa do trabalho, mas enfim, já estou com saudades e à espera da próxima vez que te vou ver. Bom ó ó, até amanhã. Beijinho GANDE*” Mensagem enviada. Ansioso, esperei por uma resposta dela.

21:06

II

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Novembro de 2004.
Em nove anos a vida de uma pessoa pode mudar muito. A minha mudou. Muito. Cresci interiormente como pessoa e hoje posso dizer que sou uma pessoa incomparavelmente mais madura do que era há nove anos atrás. Cresci da pior maneira possível, com pontapés, decepções e desilusões, mas cresci, e como tal não me arrependo de nada que tenha feito. Vou voltar um bocadinho atrás na história. Depois das férias de Verão de 95, entrei para o 10º ano. Colegas novos, professores novos, escola nova, um ambiente totalmente novo. Até essa altura, eu sempre tinha sido aquele miúdo de óculos, caladinho que é gozado pelos miúdos mais velhos, que existe em todas as turmas, e nessa minha turma de 10º ano, isso sentiu-se como nunca. A grande maioria dos meus colegas eram repetentes, e desses repetentes, uma grande percentagem tinha problemas disciplinares, por isso não foi com grande espanto que começou a sobrar para mim. Custou-me bastante a integração neste ambiente mais hostil e isso reflectiu-se no meu mundo. Pouco a pouco comecei a fechar-me e a refugiar-me no único local que sabia que era à prova de bala: o meu quarto. Na escola, poucas pessoas conseguiam captar a minha atenção e eu próprio não dava muito espaço de manobra a quem quisesse meter conversa comigo, porque tinha receio que essa pessoa fosse igual às outras. O meu quotidiano naquela escola transformou-se em sobrevivência. Ainda não tinha voltado a encontrar a Elisabete e ansiava por esse momento ao mesmo tempo que receava que ela se tivesse esquecido de mim, no final de contas quem era eu? Quando finalmente a encontrei, não trocámos mais do que um olá e foi um momento estranho e desconfortável. Sei hoje, que fui eu que transformei aquele momento em algo fugaz, porque tudo em mim gritava insegurança. A partir desse dia, raramente nos falámos e só nos víamos de passagem e quase sempre à distância. Ela prosseguiu com a vida dela e eu tentei prosseguir com a minha. Passado algum tempo soube que ela estava com alguém e fiquei um pouco triste, e alguns dias depois vi-a com os meus próprios olhos e parecia-me feliz, o que me deixou mais descansado. Esse ano demorou a chegar ao fim, mas lá chegou. O mesmo aconteceu com o seguinte e com o outro depois desse. Cada vez tive menos contacto com a Elisabete, chegando mesmo ao ponto de não nos falarmos durante meses. O secundário chegou ao fim e perdi todas as esperanças de voltar a falar com ela. Tive um ano sem estudar, a trabalhar e a pensar no que havia de fazer na minha vida. Decidi concorrer ao ensino superior e entrei no curso de Professores do Ensino Básico, Variante - Português/Inglês. Ensinar sempre foi algo que eu gostaria de fazer, sobretudo Inglês e como tal, acabou por ser uma opção natural. Entrei na Escola Superior de Educação de Lisboa e a minha turma de 20 e poucos alunos era constituída por cerca de 15 raparigas, uma realidade aliás extensível ao resto da escola. No início, como costumava acontecer, demorei a integrar-me mas depois comecei a dar-me muito bem com algumas pessoas, e algumas dessas pessoas são hoje das minhas melhores amigas. No entanto, havia uma pessoa nessa turma com a qual eu não me dava muito bem, eu dizia mesmo que nunca me iria dar bem com ela. Enganei-me. Ao fim de pouco tempo éramos quase inseparáveis o que levou a que começássemos a gostar um do outro. Pensava eu...Levei um pontapé daqueles mas recompus-me e prometi a mim mesmo que nunca mais me deixaria enganar daquela maneira. Enganei-me outra vez...No ano seguinte voltei a cair no mesmo erro...com a mesma pessoa...estúpido...Durante todo aquele tempo lembrava-me dos tempos que passei no 9º ano, nos bons tempos que passei no 9º ano. Pensava em como estariam os meus amigos dessa altura, se estariam felizes, se estariam a realizar os seus sonhos. Como estaria a Elisabete, perguntava-me eu. Carente (confesso) e farto dos pontapés consecutivos que tinha levado, procurei carinho nos sítios errados. Conheci uma pessoa através de uma amiga minha e algum tempo depois começámos a namorar. Apesar de muito diferentes, tudo parecia correr bem no primeiro mês, mas rapidamente começaram os problemas que se foram acumulando, deixando a nu cada vez mais diferenças. Acabámos alguns meses depois e voltei para a minha ilha magoado e sozinho. Onde estaria a Elisabete? Tive cerca de um ano sem ninguém até voltar sequer a pensar em relacionamentos. Aos poucos comecei a abrir-me novamente e tive duas relações esporádicas, duas “curtes” se é que se podem chamar isso. Nada funcionava comigo. Pensei muitas vezes que não merecia ter ninguém, que estava destinado a ficar sozinho, que esse era o meu destino. Acho que atirei mesmo a toalha ao chão. Estava completamente rendido à evidência. Ia viver uma vida inteira sem provar o amor.
Novembro de 2004.
Estou no último ano do curso. Estou a trabalhar num ATL / Centro de Explicações perto da minha casa. Um amigo meu, por sinal o mesmo que gostava da Elisabete, encontrou-a um dia por acaso no comboio, sempre no comboio, e pediu-lhe o número do telemóvel. Ele deu-me esse número e eu guardei-o religiosamente. Um dia, um dia como outro qualquer, estava eu nesse ATL e uns amigos foram-me fazer uma visita. Sem querer, lembrei-me que a Elisabete tinha morado na mesma rua onde nos encontrávamos agora e disse-lhes que nessa rua morava uma rapariga muito gira de quem um amigo meu tinha gostado. Quando eles se foram embora, quase instintivamente, peguei no telemóvel e enviei-lhe uma mensagem a perguntar como estava ela depois de todos estes anos e fiz-lhe um convite para aparecer no ATL se ainda morasse na mesma rua, para pormos a conversa em dia depois de todos estes anos. Ela aceitou o convite, até porque continuava a viver no mesmo sítio. Uma semana mais tarde recebi a mensagem através de uma colega de trabalho, que uma menina muito bonita tinha lá estado à minha procura e nesse instante eu pensei, “bolas, a Elisabete esteve cá e desencontrámo-nos...” Enviei-lhe outra mensagem a pedir desculpa e a pedir-lhe para lá voltar a aparecer. Esse dia chegou. Tocaram à campainha e eu fui abrir a porta. Do outro lado da porta estava um pequeno anjo. Uma princezinha. Do outro lado da porta estava a Elisabete. Sei que fiquei uns dois ou três segundos, em silêncio a olhar para ela, segundos esses que pareceram horas. Eu soube nesse momento que a minha vida tinha mudado para sempre. Não o consigo explicar, senti-o de uma maneira indescritível. Convidei-a a entrar e sentámo-nos um pouco para tentar falar sobre o que ambos tínhamos feito em todos estes anos que tinham passado, nestes 9 longos anos. No final da nossa conversa, ambos chegámos à conclusão que teríamos que reatar a nossa amizade a partir daquele momento. Era evidente, que aquela pequena conversa tinha criado em nós, o bichinho para falarmos mais um pouco. Combinámos conversar nessa mesma noite no Messenger. Eu tinha voltado a ver a Elisabete, desculpem, a Lisa, porque descobri ao fim destes anos todos, que ela detestava ser chamada de Elisabete. Contava os minutos para nos encontrarmos na net, e a conversa nessa noite foi um prolongamento daquilo que tinha acontecido nessa mesma tarde, ou seja, um momento prolongado muito agradável, um momento em que o tempo passava sem dar conta disso, um momento que criava água na boca na expectativa pelo próximo. Nas noites seguintes a essa, encontrámo-nos sempre na net, e todas as noites me sentia cada vez melhor ali a falar com ela, quase como se sentisse que era aquilo que deveria estar a fazer naquele momento. Sentia-me bem sem saber porquê. Decidi marcar um café com ela. Precisava de a voltar a ver outra vez. Precisava de voltar a estar perto do que a minha vida tinha decidido esconder de mim todos estes anos. Precisava tanto de a ver.

21:00

I

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O ano era 1995. Precisamente hà 14 anos atrás. Era Março ou Abril, ou talvez fosse Maio ou mesmo Janeiro...isso para já não é importante...eu frequentava o 9º ano e na minha turma tinha pessoas que poderia considerar bons amigos, uns estavam comigo desde o 5º ano, outros tinham entrado na minha vida ao longo do meu percurso escolar, mas até essa altura, nenhuma turma me tinha marcado tanto, como a minha turma do 9º ano. É óbvio que numa turma de 30 alunos, nunca podemos gostar de todos, mas eu tinha a sorte de ter um grupo de colegas/amigos muito bom. Em 95 eu tinha 14 anos, estava em plena adolescência e por isso ainda estava naquela fase de indecisão entre o ir brincar com rapazes e gostar e andar atrás de raparigas...até essa altura, apenas tinha dado uns beijinhos numa rapariga aqui e noutra rapariga ali...tudo brincadeiras inocentes, até porque eu era, admito, muito infantil. Mas nesse ano, eu tive, entre outras, uma colega nova. Chamava-se Elisabete e desde o inicio do ano, desde a primeira vez que a vi, naquele primeiro dia de aulas em Setembro, que notei nela algo de diferente. O quê? Não sei...era simplesmente algo de diferente. Tornei-me amigo dela de uma forma muito natural. Ela tinha um sentido de humor muito parecido com o meu e por causa disso, durante aquelas aulas mais chatas, escrevíamos bilhetes um ao outro a gozar com qualquer coisa que estivesse a acontecer, ou simplesmente para passar o tempo. Quanto mais tempo passava junto dela, mais tempo queria passar. De uma forma muito natural, acabei por me apaixonar por ela. Pouco tempo depois descobri que o meu melhor amigo também gostava dela e eu decidi guardar para mim este sentimento que crescia um bocadinho todos os dias. Colegas meus tentaram juntá-los e a única coisa que eu podia fazer era observar tudo à distância...senti-me um pouco triste mas ao mesmo tempo queria que eles estivessem juntos porque gostava imenso dos dois e se eu não podia estar com ela, pelo menos tinha a certeza que ele a poderia fazer muito feliz. Mas por inúmeras razões, eles acabaram por nunca namorarem e eu continuava secretamente apaixonado por ela. Um dia, a minha turma foi fazer uma visita de estudo. O local pouco importa. Na viagem para lá, ela foi sentada na cadeira à frente da minha e no meio de muitas conversas, lembrou-se de me perguntar se eu gostava de alguém da nossa turma. Lembro-me de ter corado porque não estava minimamente preparado para responder aquela pergunta, no entanto, respirei fundo, ganhei coragem e disse-lhe que sim...ela ficou super entusiasmada com a resposta e deu início a um interrogatório do tipo policial para tentar saber quem era. Para tentar acalmá-la, fiz-lhe uma proposta, de meia em meia hora, dir-lhe-ia o nome de uma rapariga pela qual eu não estaria interessado, e assim, a lista iria diminuindo até por volta da hora de voltarmos a casa. O meu objectivo era o de que quando voltássemos a casa ela já não se iria lembrar, ou então o facto de eu ter de ir logo para casa, serviria de desculpa para eu não ter de lhe revelar o meu segredo. Ela aceitou. Com o que eu não contava, era que ela chegasse a uma lista com apenas 3 nomes a meio da viagem! De três, rapidamente passou a dois. Um desses nomes era o dela mas como ela acreditava cegamente que eu gostava da outra rapariga, nem sequer considerava a hipótese de poder ser ela. O momento da revelação tinha chegado. O autocarro tinha parado para sairmos durante uns minutos e eu disse-lhe que lhe diria quem era a pessoa por quem eu me tinha apaixonado quando voltássemos para o autocarro, mas ela colocou-se à minha frente, barrando o caminho, dizendo que eu não iria a lado nenhum sem antes lhe revelar o nome. E assim foi. Eu disse, “é de ti que eu gosto”. Nesse momento, ela poderia ter tido mil e uma reacções, e talvez eu não estivesse preparado para nenhuma, mas a que ela acabou por ter, surpreendeu-me. Olhou para mim, disse, “Ahhhhh....”, virou costas e saiu do autocarro como se nada se tivesse passado. Escusado será dizer que o resto da viagem não foi muito feliz. Sentia-me triste, não por ela me ter rejeitado, mas por nem sequer ter sido rejeitado. Mesmo sem nunca termos falado sobre o assunto, combinámos através de olhar secreto que aquele episódio nunca se tinha passado e que portanto, iríamos continuar a viver a nossa amizade como o tínhamos feito até então. Passaram-me mais alguns meses e o ano lectivo chegou ao fim sem que ninguém tivesse sequer suspeitado que algo se tinha passado. O 9º ano é o fim de um ciclo e é nessa altura que muitas amizades terminam. Alguns iriam para escolas diferentes, outros para agrupamentos diferentes, e a única certeza que todos nós tínhamos naquele último dia de aulas, era que provavelmente, muitos de nós não nos iríamos ver mais. Eu sabia que a Elisabete iria para a mesma escola que eu no ano seguinte mas também sabia que ela iria para outro curso. Sem saber, a minha amizade com a Elisabete, estava a chegar ao fim nesse mesmo dia.
Passei aquelas férias de Verão na expectativa de saber quem seriam os meus novos colegas, os meus novos amigos, querendo acreditar que iria manter algumas amizades antigas, querendo acreditar que a Elisabete continuaria na minha vida porque inconscientemente eu precisava dela. Muito. Isto infelizmente não aconteceu. Sem qualquer explicação, deixámos de falar um com o outro e só muito esporadicamente é que a via na escola. Eu sei que tenho muita culpa pelo que aconteceu e arrependo-me todos os dias por tê-lo feito. Continuámos as nossas vidas, percorrendo caminhos separados, sem nunca mais termos tido contacto um com o outro, exepção feita a um encontro inesperado de 30 segundos numa estação de comboios.

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