Esperei, esperei e esperei mais um pouco. Rebolava na cama, à espera de uma simples mensagem de telemóvel. Mas era muito mais do que uma simples mensagem de telemóvel. Era a mensagem que viria culminar a noite perfeita. Às 6h45, em ponto, eis que ouvi um “pi-pi, pi-pi”. “É ela”, pensei eu. Virei-me para o lado esquerdo da cama e sem perder tempo a acender luzes peguei no telemóvel e li, “Mensagem recebida de Lisa. Ler?” Carreguei na tecla correspondente ao “sim” e senti que o meu sorriso iluminou o quarto que estava escuro até então. A mensagem dizia isto, “Olha, adorei a noite de hoje e sinto o mesmo que tu, porque infelizmente o tempo não pára. Só que fiquei a pensar que te querias ir embora. Obrigada por tudo. Beijinhos grandes e dorme bem. E espero que não te esqueças de mim.” Esse é um pedido impossível. Não dormi nessa noite e sei que reli aquelas palavras umas 50 vezes. Ela não me saía da cabeça e cada vez mais, só pensava na próxima vez que iria estar perto dela. Era inebriante. Continuámos a trocar mensagens e a falar pelo Messenger à noite, e numa dessas conversas, assim meio do nada, quando já nos estávamos a despedir (como eu detestava ter de me despedir dela), ela desafiou-me a ir despedir-me dela cara-a-cara. Deviam ser umas 2 da manhã e eu ia trabalhar às 8h00, logo, certamente ela estaria à espera que a minha resposta fosse qualquer coisa do género, “ohhhh…desculpa mas hoje não vai dar…vou trabalhar daqui a pouco.” Em vez disso, eu disse-lhe: “Daqui a meia hora estou à porta da tua casa. Dou-te um toque e tu desces, pode ser?” Ela disse que sim e o meu coração começou a palpitar. Já estava de pijama, por isso vesti-me o mais rápido possível com a roupa que tinha mais à mão. Tentei não fazer barulho porque os meus pais já estavam a dormir mas sem sucesso. Como de costume, a minha mãe apanhou-me e perguntou-me onde é que eu ia aquelas horas da noite. Eu menti-lhe e disse-lhe que ia ter com uns amigos e que não demorava. Na verdade ia ter com a mulher da minha vida. Embora eu já o soubesse naquela altura, achei que seria informação a mais para a minha mãe e optei pela versão dos amigos. Devo ter ido a correr para casa dela porque não me lembro quanto tempo demorei. Lembro-me de ter saído de casa e de chegar à porta dela. Nada mais. Nada mais importava. Dei-lhe um toque conforme tinha ficado combinado, e ela desceu. Linda como sempre. Ela começou por se desculpar dizendo que também já estava de pijama e que por isso estava toda despenteada, mas para mim, ela era a mulher mais bonita do mundo. Ela é a mulher mais bonita do mundo. Tentámos reatar a conversa do Messenger ali à porta do prédio, mas o frio daquela noite de Dezembro, daquela noite de 2 de Dezembro, começava a ganhar-nos aos pontos. Ela disse que ia buscar as chaves do carro para não apanharmos tanto frio e assim foi. Num minuto ela subiu as escadas do prédio e no outro voltou a descer com as chaves na mão. Entrámos para o seu Opel Corsa preto, com a matrícula “GR” ou “Grrrrrrrrr”, como nós dizíamos (ela sempre teve matriculas engraçadas) e o quentinho voltou a instalar-se à nossa volta. Por momentos, instalou-se um silêncio incomodativo. Um silêncio daqueles capazes de deitar tudo a perder e eu fiquei ali, sem saber muito bem o que lhe dizer, sem fazer ideia do que ia na cabeça da Lisa naquele momento. Sem pensar muito naquilo que estava a fazer, peguei na mão direita dela e comecei a acariciá-la. A sua pele suave causava-me arrepios. Corámos em simultâneo. Sentia que ela também não fazia a mínima ideia o que haveria de me dizer e quase ao mesmo tempo dissemos, “Pois…então é isto não é? Aqui estamos nós…” Rimos. E eu, feito parvo, achei que deveria fazer alguma coisa, porque desde que tinha pegado na mão dela sentia que não a queria mais largar. Não poderia mais largá-la. Não depois de tudo o que tínhamos vivido até aqui. Sentia que era ali, naquele momento, que eu iria fazer a jogada mais arriscada da minha vida. Senti que poderia deitar tudo a perder. Senti que poderia nunca mais vê-la. E embora todos estes cenários fossem demasiado difíceis de visualizar, decidi arriscar tudo na mesma. Sem pensar duas vezes, porque se o tivesse feito não teria tido coragem, disse-lhe,” Há uma coisa que eu preciso de fazer desde que entrei neste carro. Aliás, há uma coisa que eu preciso de fazer desde que te voltei a ver. Algo com o qual eu não estou a conseguir lutar e que está a ser mais forte que eu. E sinto que o preciso de fazer para saber se tudo isto que eu tenho sentido nestes últimos dias é correspondido ou não. É a coisa mais arriscada que vou fazer na minha vida mas acabei de descobrir que desisti de lutar contra ela.” E dito isto, avancei na direcção do seu rosto para a beijar.
Mas ela virou a cara.
E afastou-se.


